As comédias, geralmente ignoradas pela Academia, ganharam uma injeção de ânimo quando, em 1978, Woody Allen mostrou que o gênero tinha capacidade de ser valorizado com a produção Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, vencedor do prêmio de Melhor Filme no Oscar daquele ano. O renomado diretor, que continua na ativa até os dias atuais (e inclusive está lançando seu mais recente trabalho: Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos), estava no início da carreira, mas já imprimia em suas obras a verve intelectualmente bem humorada, autobiográfica, psicanalítica-comportamental, dialógica e extremamente verborrágica.
Além de todas essas características quase que incompreensíveis diante do desconhecimento de sua obra, Allen alia o preciosismo fílmico com a qualidade técnica, lançando mão de inúmeros recursos que inovam o cinema americano e permitem ao espectador novas visões sobre uma receita já desgastada pelo classicismo da maioria dos cineastas até então. A utilização da inserção do personagem na dimensão do receptor (o protagonista fala por vários momentos dirigindo seu olhar para a câmera, como se conversasse com o espectador) é um artifício assumidamente Alleniano, funcionando como uma espécie de auter-ego do próprio diretor, uma vez que ele quase sempre é roteirista de seus filmes, o que faz com que suas aspirações pessoais transcendam o papel (ainda mais nesse caso, em que Woody é também o ator principal da história).

Outros recursos técnicos inovadores no filme são: o uso da técnica de split-screen (a tela é dividida no meio e duas cenas, em tempos dramáticos distintos, ocorrem simultaneamente e “dialogam” entre si, diálogo este baseado em alguma referência de comparação); a utilização de efeitos especiais para caricaturizar os próprios personagens, numa tentativa de explicar melhor certo comportamento; flash-backs em que há a presença dos protagonistas na forma de lembrança onisciente (ou onipresente); e diversas interrupções de sequências lógicas (diálogos, geralmente), a fim de aumentar no espectador a sensação de fragmentação pela qual o relacionamento dos protagonistas passa.
Por falar neles, Alvy Singer (Woody Allen) é um comediante fracassado e pessimista com a vida que encontra em Annie Hall (Diane Keaton, Melhor Atriz – Oscar 1978) um motivo para se inspirar. A obssessão, no entanto, vai gradativamente tornando difícil a convivência entre os dois. Mais do que apenas pretexto para a risada, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa é uma profunda e complexa análise do comportamento de um casal, servindo de referência, inclusive, para projetarmos para nossos conflitos os problemas e soluções encontrados por Alvin e Annie durante o processo de separação e volta dos dois.
Começando pelo início, o filme já é inovador na introdução e continua sendo até o momento dos créditos finais. Praticamente não há trilha sonora, uma vez que o longa se atém ao diálogo, num ritmo vigoroso, constante e interminável, assim como são as discussões de casais, que quase sempre terminam em pizza (ainda mais com o humor auto-depreciativo do casal de protagonistas, no qual tanto Annie quanto Alvy duelam o título de pessoa mais estranha). É a partir de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa que Allen emplaca no mundo cinematográfico seu portfólio pessoal: intelectual acído, inseguro e hipocondríaco que ama Nova Iorque, mulheres e Jazz.
Em 1978, ainda concorreram ao prêmio de Melhor Filme no Oscar as seguintes produções: Star Wars IV – Uma Nova Esperança (Star Wars Episode IV - A New Hop, primeira parte da saga milionária de George Lucas), A Garota do Adeus (The Goodbye Girls), Momento de Decisão (The Turning Point) e Júlia. Lembrando que ainda neste ano concorria em outras categorias (não entrou como candidato a Melhor Filme) um dos grandes sucessos de Steven Spielberg: Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind).
NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (ANNIE HALL)
LANÇAMENTO: 1977 (EUA)
DIREÇÃO: WOODY ALLEN
GÊNERO: COMÉDIA/ DRAMA
NOTA: 9,0
3 comentários:
Clássico!
Ótima postagem!
Viva Allen!
Abs.
Rodrigo
Woody imprimindo sua cara!
Woody tem um jeito interessantissimo de fazer cinema. Eh impossivel assistir a um de seus filmes e nao reconhecer logo de cara o diretor!
Sandro Azevedo
blog24fps.blogspot.com
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