09 novembro 2010

TOP 1968 - No Calor da Noite

Um filme policial, que dedica quase duas horas a desvendar o assassinato de um grande empresário morto em Sparta, no interior do Mississipi, é o tema central que carrega a divulgação de No Calor da Noite. Mais do que isso, porém, me foi apresentado durante a sessão desse clássico imperdível do diretor Norman Jewison: uma análise real e aterrorizante do preconceito racial nos Estados Unidos da década de sessenta e uma crítica inegável à clara segregação social existente entre o sul e o norte estadunidenses. As três camadas dramáticas aliadas garantem a excelência cinematográfica, auxiliada ainda mais pela bela fotografia, a trilha sonora (deslumbrante) e as soberbas interpretações dos protagonistas.

Sidney Poitier dá vida a Virgil Tibbs, um perito em homicídios da Filadélfia que está visitando a mãe no Mississipi quando é autuado pela polícia local apenas por ser negro e estar perto do local de um crime (o assassinato do Sr. Colbert, empresário responsável pela construção de uma grande fábrica na cidade). A humilhação pela qual passa vai aumentando a partir da descoberta por parte da população de seu verdadeiro ofício. Todos desacreditam que um negro possa se vestir bem, ganhar mais do que os brancos e ainda ser mais inteligente. Torna-se prioridade para Tibbs continuar na cidade até descobrir o verdadeiro assassino e provar para aquele povo que a cor não determina inferioridade.

Juntamente com essa discussão subliminarmente prescrita na trama, somos levados a conhecer as diferenças brutais entre a realidade da polícia do norte (capacitada, imparcial, criteriosa, minimalista nas apurações) e do sul dos EUA (medíocre do mais subalterno oficial até a alta cúpula do poder), relação que funciona como referência para uma reflexão mais profunda sobre a sociedade americana. O preconceito e a precariedade dos estados sulistas são representados pelo delegado Gillespie (Rod Steiger – ganhou como Melhor Ator), que desacredita na capacidade de Tibbs desde o início e ainda dispensa seus métodos investigativos (agindo pela indução e intuição).

A trilha sonora é composta por uma canção principal (In The Heat of the Night), composta exclusivamente para o filme por Ray Charles, e uma seleção perfeita de sons que garantem o suspense e a ação frenética (à la Agatha Christie) que o filme proporciona (a estatueta de Melhor Som foi levada por No Calor da Noite). As atuações são dignas das premiações recebidas, principalmente as da dupla de protagonistas, que arrebenta à frente do elenco, principalmente mais pro final da história, quando a pressão popular e a violência sobre Tibbs começam a se tornar sinal de perigo para o personagem.

Diante da empatia que tenho com o filme, acredito, entretanto, que ele não devia ter levado a estatueta principal no Oscar daquele ano. Em 1968, concorriam ao posto de Melhor Filme, além de O Fantástico Dr. Dolittle (Doctor Dolittle), outros três filmes soberbamente bem feitos. São eles: Adivinhe Quem Vem Para Jantar (Guess Who's Coming to Dinner), Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas (Bonnie & Clyde) e A Primeira Noite de um Homem (The Graduate), este último, para mim, o verdadeiro merecedor da premiação de Best Picture. A Academia, entretanto, adora filmes-mensagens, ou seja, aqueles que têm algo pra dizer além do que já dizem. Bláááááááá....

NO CALOR DA NOITE (IN THE HEAT OS THE NIGHT)
LANÇAMENTO: 1967 (EUA)
DIREÇÃO: NORMAN JEWISON
GÊNERO: DRAMA/ POLICIAL
NOTA: 8,5


3 comentários:

Felipe disse...

Gui, depois que acabar esse projeto pode iniciar outro chamado TOP Camelô. O que vc acha?

Tô Ligado disse...

Geralmente os críticos tem um gosto bem crítico pra escolher os filmes vencedores! hehe

Augusto César disse...

Que bom que voltastes que o projeto. Ja estava pensando que o blog ficaria apenas com a seção "1/3 Estreia".

Bem... filmes velhos como este não são comigo, hahahaa...