
Em 2009, porém, me deparei com uma exceção: o filme "500 Dias com Ela", do estreante Marc Webb, que trata com realismo e honestidade o amor e seus efeitos nas pessoas. “Uma história de amor que tem como pressuposto não contar uma história de amor”, como o próprio protagonista desabafa no início do filme. Recomendadíssimo!!
Fiquei feliz ao decepcionar meu preconceito...
Com a mesma sensação, fui ao cinema esta semana assistir Simplesmente Complicado, da melosíssima Nancy Meyers, confiante num roteiro que fugisse das convenções sentimentais que assolam o cinema hollywoodiano, e as suas próprias obras anteriores, como O Pai da Noiva 2 (1995) e Alguém tem que Ceder (2003). Mas me enganei. Meu preconceito foi corroborado pela sequência de inutilidades exibida.
Jane (Meryl Streep) é mãe de três filhos e está celebrando 10 anos de sua separação com o advogado Jake (Alec Baldwin), com quem mantém uma relação aparentemente amistosa, quando, na festa de formatura do filho mais novo, bebe além da conta a acaba na cama com o ex-marido!
O problema é que o personagem de Baldwin está casado com outra mulher (bem mais jovem que Jane) e, a partir desta relação casual, começa a se “reapaixonar” pela ex. Porém os dois não contavam com a aparição de Adam (Steve Martin), arquiteto de Jane, que também se apaixona pela protagonista (arquiteto este que, ao reformar a casa de Jane, busca, numa metáfora medíocre, reformar a própria vida da protagonista...coisas de Meyers!)
O filme todo é uma terapia, com longos conselhos, aflições, angústias da meia idade(e as caras e bocas de Streep). Ouso reclassificar o longa como um Romance-Cômico, já que as nuances românticas/dramáticas são mais trabalhadas do que propriamente a comédia, mesmo que num tom claramente superficial, cujos cenários são repletos de representantes clássicos da burguesia americana, ignorando a existência das outras classes sociais.
A sequência de conflitos familiares poderia ter sido mais bem aproveitada, no que diz respeito a profundidade na abordagem destes conflitos, já que, assim como o próprio nome do filme sugere, mas não cumpre, a vida, e suas relações e sentimentos, é por vezes simples, ao mesmo tempo em que bem complicada.
Situações “clichê” são frequentemente retomadas, através de uma irritante enxurrada de estereótipos, como o grupo de amigas que se reúnem depois da transa para falar mal do ex da afetada, a protagonista que já sabe o que fazer, mas recorre ao amigo-terapeuta só para preencher cenas, a insegurança dos personagens que já passaram dos 40, ou 50, diante do risco de perderem seus parceiros para jovens sedutores etc.
Destaco como o ÚNICO motivo interessante para reservar 120 minutos do deu tempo assistindo Simplesmente Complicado é a atuação de Meryl Streep, que continua absorvendo todo e qualquer personagem e conseguindo transmitir a carga dramática que ele possui (mesmo que isso signifique representar uma madame supérflua e presa aos conceitos do “branco-rico”).
Parece que algo de Julie Child (último personagem de Meryl no cinema, no filme Julie & Julia, de 2009) ainda permanece na atriz, que se mostra habilmente treinada na gastronomia (também francesa!) como dona de uma padaria de luxo. É uma pena que um talento como o dela seja desperdiçado num texto tão pobre!!
Steve Martin parece que gravita numa outra dimensão durante o filme. Absorto na tentativa de não fazer o público rir (já que interpreta um divorciado/nerd/tímido), ele não atua, vegeta. Seu potencial emerge quando a comédia ganha um destaque, mas logo afunda no seu lago do esquecimento novamente.
Um filme fraco, do ponto de vista crítico, mas que ganha nas atuações (inclusive de Alec Baldwin e seu jeito canastrão de ser) e no aspecto comercial, já que Nancy Meyers consegue, mais uma vez, atingir seu público alvo, as “senhoras” de meia idade, que se identificam com Jane, e podem sonhar durante a sessão em serem disputadas por dois homens ao mesmo tempo (talvez esse seja o sonho da diretora, que insiste tanto nesse tema).
Qual será a próxima empreitada de Meyers? Quem sabe ela não se junte a Stephanie Meyer (que, ironicamente, tem o mesmo sobrenome) e as duas lancem uma série de TV, ou um filme sobre os conflitos dos vampiros amantes e sensíveis de meia idade...pelo menos conseguem lotar as salas de cinema....
OBS: Acho que eu era o único expectador abaixo dos 40 anos na sala (e um dos poucos homens)...
SIMPLESMENTE COMPLICADO - IT'S COMPLICATED
LANÇAMENTO - EUA (2009)
DIRETOR: NANCY MEYERS
GÊNERO: COMÉDIA ROMÂNTICA
NOTA: 6,0
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