17 abril 2010

Apenas mais um estranho?

Às vezes me pergunto se realmente conhecemos aqueles que nos cercam. Podemos saber alguns detalhes da vida de fulano, ou uma história engraçada da suposta família de cicrana, mas quem nos garante que todas essas informações são verdadeiras? Cresci numa cidade (bem) pequena, menor que muitos bairros das metrópoles, o que me fez aterrisar em solos urbanos (desculpem-me os conterrâneos) com uma certa insegurança, boa dose de receio e muita ingenuidade interiorana. Para piorar (ou melhorar, de acordo com o ponto de vista) sou mineiro, classicamente interpretado como "desconfiado" de tudo.

Hoje de manhã assisti um filme que, além de ser base de férteis discussões psicossociais, sintetiza essa minha impressão. Trata-se de CLOSER - PERTO DEMAIS, obra de 2004 do diretor Mike Nichols, que revela as sintuosas relações entre diversos "strangers", significante constante durante o longa. As idas e vindas amorosas dos quatro protagonistas (Julia Roberts, como Anna; Jude Law, como Dan; Natalie Portman, como Alice/Jane e Clive Owan, como Larry) retratam com verossimilhança a busca pelo descompromisso e o imediatismo de nossa geração, a Y, cada vez mais preocupada em satisfazer os desejos pessoais, individualizando as conquistas, as relações, o amor, o sexo, e tudo que for possível pagar, através do avanço do "capitalismo selvagem", como dizem os Titãs.


Além da discussão sobre a fluidez de nosso tempo, os chats da internet (que em 2004 ganhavam espaço entre os reprimidos sexualmente/socialmente/esteticamente falando) servem de pano de fundo para o desenrolar das histórias que se entrelaçam no enredo e dão "sustância", como dizia minha avó, à artificialização do amor, proposta pelo filme. Na intermitável trilha para evitar possíveis frustrações (que, na minha opinião, são essenciais à vida), nossos impacientes contemporâneos dedicam dinheiro e tempo ao prazer imediato, à satisfação de desejos que seriam improváveis de serem realizados caso houvesse uma segunda pessoa envolvida na sua história de vida. Assim, jovens solteiros esbarram com idosos solteiros, todos deprimidos e depressivos, em busca do "algo a mais" que a estabilidade profissional, pessoal e amorosa não é capaz de suprir.

O diretor consegue refletir na trama essas questões. Todas as personagens se conhecem por acaso e vão tecendo uma teia amorosa complexa e digna de um filme!! É através de Alice (Portman) que Dan (Law) se levanta do fracasso literário que enfrentava, inspirando-se na história de vida da imigrante novaiorquina, ex-stripper, e volta a escrever romances, ultimamente substituídos pela redação de obituários no periódico local. Na sessão de fotos para as orelhas do livro, Dan se depara com Anna (Roberts), fotógrafa PhD em divórcios, que não sossega enquanto não encontrar o homem perfeito (que pode ser naturalmente substituído por alguém mais perfeito ainda).

Na tentativa de conquistar a fotógrafa (que, convenientemente, só captura retratos de rostos estranhos) Dan tenta marcar um encontro furado entre ela e um internauta pervertido, mas acaba servindo de cupido, ao aproximar Larry (Owen) de Anna. Passam-se quatro anos entre separações, brigas, traições e verdades. A mentira é abominada pelos protagonistas, o que gera um "sincericídio" (by Britto Junior), facilitando a compreensão dos verdadeiros desejos de cada um, ou seja, a felicidade individual, independente de quem possa ferir.

Atenção para as passagens de tempo dramático, assinaladas exclusivamente através de falas, e não de recursos visuais, como comumente vemos. Este diferencial talvez seja o principal motivo pelo qual Closer se situe como um belo e bem estruturado filme, tecnicamente falando. Além da passagem do tempo, a trilha sonora impressiona, com o estouro da música The Blower's Daughter, de Demien Rice, versionada por Ana Carolina no ano seguinte como É Isso Aí, com a participação do Seu Jorge.

Um drama contido, com atuações medianas, mas que consegue trazer uma mensagem de alerta pra nossa sociedade. Estamos tão perto e tão longe de nós mesmos ao mesmo tempo. Será que nós próprios não somos estranhos, o que faz com que tenhamos de fantasiar uma nova identidade internética?

Para terminar, deixo o trecho da canção "The Blower's Daughter" que acredito que sintetiza tudo que o longa aborda:

"I can't take my mind off you, I can´t take my mind off you...I can't take my mind...'Til I find somebody new".

CLOSER: PERTO DEMAIS - CLOSER
LANÇAMENTO: 2004 (EUA)
DIREÇÃO: MARK NICHOLS
GÊNERO: DRAMA
NOTA: 8,5

6 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

Um filme que fala de relacionamentos, sexo casual, amores ocasionais, tudo breve e tudo intenso...

seu texto é bem exato e gostei da forma como focou o filme!

parabéns, te leio, sempre!

Cristiano Contreiras disse...

Espero que possa ler meu espaço, aos poucos...abraço

Léo Peres disse...

Olá.
Gostei muito do seu blog.
Seu trabalho é bacana e consistente.
Estarei seguindo!
Abraços!

Claudinha ੴ disse...

Oi Gui!

Hmmm, deste eu não tinha nem ouvido falar. Estou gostando desta sua investida no mundo da crítica do cinema. Tá levando muito jeito...
E me desculpe por não ter cumprimentado direito naquele dia na esquina da Marechal Deodoro. Eu me preocupei com o cruzamento perigoso e só depois vi a Jeh e depois ainda vi você. estou ficando velha, Gui, meus reflexos estão sumindo!
Beijos! Saudades docê!

Brentegani disse...

Faz um tempo que assisti esse filme, ele é muito bom (não lembro mais todos os detalhes...)!
E acredito que essa história de não conhecer bem as pessoas acaba sendo bem real, mas tenho a impressão que nem é por mal ou proposital, é que passamos a vida toda tentando nos conhecer... diante disso, é difícil alguém de fora ter total certeza de quem somos né!? (Aquelas que já começa a ir longe, muito longe)rs
Bjs

Blogger disse...

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